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Carlos
Scliar
auto-retratos |
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Auto-retrato
óleo s/tela / 57 x 36 cm
São Paulo, 1940 - coleção particular
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"Quando me pedem para que conte
quando comecei a pintar geralmente invento algo ou lembro histórias
transmitidas pelos pais-corujas. De fato não me lembro quando comecei.
Lembro vagamente que desejava estudar música - piano - e, como ainda não
sabia escrever, o assunto foi postergado para quando estivesse
alfabetizado. Resultado: comecei a riscar com carvão por toda a parte e não sei se
minha família acreditou estar nascendo um artista pintor. |
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Aos doze anos
colaborava nos suplementos infantis e juvenis de Porto Alegre. Escrevia
contos, poemas e mesmo tentava novelas. Mais tarde comecei a ilustrar os
textos e pouco depois só mandava para os suplementos desenhos. Tratado
como guri prodígio, estava convencido de sê-lo.
Isso me atrapalhou bastante depois, mas já é outra história."
(depoimento a Roberto
Pontual, 1970)
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Auto-retrato
guache encerado / 23 x 16,5 cm
São Paulo, 1941 - coleção Gilberto Chateaubriand
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Auto-retrato
nanquim / 23,2 x 19x5 cm
Porreta Terme, Itália, 1944
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Foi na guerra, em contato com a
miséria que ela produz, vivendo aqueles instantes com a sensação de
últimos, que banha de uma luz especial tudo o que nos cerca, que se iniciou, sem eu ter consciência, uma nova etapa em minha pintura. Eu era,
se não um pessimista, quase um cético: me descobri então um lírico, um
lírico visceralmente otimista - com um tremendo amor à vida e confiança
nos homens que tomavam consciência e buscavam se defender. |
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" Comecei a
desenhar e pintar naturezas-mortas, pretexto para demonstrar meu amor às
coisas simples, cotidianas, feitas pelos homens, úteis a todos os homens.
Tentava transformar a carga de amor e vida que percebia em cada objeto. Me
vi, lentamente, modificando a minha pintura, não só temática, mas
sensorialmente."
(in Carlos Scliar,
álbum produzido pelo Museu de Arte de São Paulo, 1983)i
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Auto-retrato listrado
Têmpera a ovo, encerada / 44,5 x 36 cm
Pontal do Sul (BA), 1941 / coleção Ivan Marquett
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Auto-retrato
guache / 31 x 21,5 cm
Rio de Janeiro, 1946 / coleção do artista
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"Pretendia, quando jovem, mudar
o mundo com meus quadros; os propósitos, ainda que ingênuos, eram
honestos e válidos, e continuam valendo, somente que hoje me proponho,
mais discretamente, ser parte da revolução cultural brasileira,
transmitindo em minhas obras meu amor às coisas simples, que fazem a
beleza da vida, esta que deve, por todos os meios, ser amada e
defendida."
(in Scliar, o real
em reflexo e transfiguração - década de 60)
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"Toda arte, tenha-se
consciência disso ou não, tem uma função política.
Mas, em última instância, o que é que não tem função
política?"
(depoimento a Walmir Ayala,
década de 70)
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Auto-retrato
guache / 33 x 31,5
1947 / coleção particular
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Auto-retrato azul
óleo s/ cartão / 55 x 32,5 cm
Paris, 1948 / coleção do artista
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Auto-retrato com roupão listrado
Guache encerado / 54 x 40 cm
Paris, 1949 / coleção Michel Loeb
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"Depois de quatro anos de
estadia européia convenci-me de que era no Brasil que deveria descobrir o
meu caminho mais profundo, mais coerente com a minha visão e intuição
das coisas. Foi muito lentamente que descobri que deveria refazer minha
base, mal organizada devido a uma caótica formação autodidata. Em fins
de 1950 encontrei o Rio, e principalmente São Paulo, em plena febre dos
museus e, a partir de 1951, das Bienais, que defendiam, em regulamento, o
vanguardismo do dia. Decidi me enfurnar no Rio Grande do Sul, talvez
buscando minhas raízes. Pretendia parar para pensar. Encontrei um grupo
de amigos atravessando crises semelhantes. Decidimos criar o Clube de
Gravura, baseados na experiência do Taller de Grafica Popular do México.
Seria para nós uma espécie de escola livre, com modelo vivo para
desenho, discussões, edições; e tentaríamos reorganizar nossos
conhecimentos profissionais, na busca de uma linguagem que nos
permitisse uma obra viva, capaz de nos contatar o público. (...)" |

Auto-retrato
vinil encerado / 75 x 55 cm
Ouro Preto, 1970 / coleção do artista
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Auto-retrato com natureza morta
guache encerado / 64 x 31,8 cm
Rio de Janeiro, 1960 / coleção Michel Loeb
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(...) "Os temas ligados à vida,
costumes e paisagens locais se tornaram nossa preocupação. Durante seis
anos passamos largos períodos desenhando, gravando e pintando temas
gaúchos. Foi um período importante na reformulação de meu trabalho
profissional. Nosso lema: a primeira condição do artista é adquirir uma
base profissional. Vivíamos, no país, um instante em que, em nome da
pesquisa, se praticavam os maiores mal-entendidos estimulados pela falta
de conhecimentos. Aproveitando nossa condição de hors-concours no
Salão Nacional de Arte Moderna, remetemos, a partir de 1952, obras que,
ainda que fossem para nós tarefas de disciplina, obras de circunstância,
estimulariam alguns jovens a desconfiar que era preciso conquistar uma
base profissional.
A liberdade nasce do conhecimento. "
(in Carlos Scliar,
álbum produzido pelo Museu de Arte de São Paulo, 1983)
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| " Vocês me pedem que transmita,
na medida do possível, alguma coisa dessa experiência que, como artista
militante, eu venho aprendendo nesses últimos quarenta anos em nosso
país. Estou cada vez mais convencido que a experiência de cada um serve
pouco para os outros. E quando serve é geralmente mal utilizada.
Trabalhar ou tentar sobreviver fazendo Arte em nosso país é um problema
a ser resolvido em quase todos os níveis. A diferença entre 1940 e agora
é que o número da artistas teimosos é maior. Os mal-entendidos se
acumulam, nossa crise de crescimento está atrelada pelas crises de
esclerose das metrópoles que, no entanto, continuam alimentando nossos
críticos ideólogos. Em síntese: eu gostaria de aconselhar cada pessoa
que desejasse ser respeitada pelo seus semelhantes - seus colegas - fosse
capaz profissionalmente.
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Auto-retrato
Linoleogravura
Porto Alegre, 1951
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Auto-retrato
Linoleogravura / 25,6 x 21 cm
Porto Alegre, 1951 / coleção do artista |
Penso que a
crise que atravessamos, que permitiu o aparecimento de tantos
"artistas" conceituais, isto é, artistas do blá-blá-blá,
fizeram com que muitos jovens talentosos descurassem, subestimassem a sua
formação profissional. Isto é, explodiam com seu talento intuitivo e
rapidamente se viam no impasse de uma incapacidade que era menos criativa
que material. Penso que essa é uma crise fácil de ser superada, quando
se coloca o problema no devido lugar. Cada setor profissional deve assim
se classificar na medida em que de fato domina seus instrumentos de
linguagem. Os pintores devem conhecer seus problemas específicos, os
gravadores idem. Além disso, técnica quem sabe ensina em cinco minutos,
depois cada um, com a sua sensibilidade e percepção, o resto da vida vai
desenvolver e aprofundar, até chegar àquela linguagem tão simples e
direta, que será uma digital, que parecerá simples. (...)"
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| (...) Essa
simplicidade é uma conquista que exige muito trabalho, principalmente
muita continuidade e a humildade que acompanha toda e qualquer profissão.
O artista transmite suas idéias e sua sensibilidade em tudo que faz. Se
transmite mal, ou tem meios precários ou não tem idéias. A criatividade
de cada um tem como seu maior inimigo o desconhecimento técnico,
profissional. Viver do seu trabalho é o desejo de todo e qualquer
artista, não basta ter talento para isto. Tão pouco uma grande
promoção, que ajuda, que sempre ajuda a fazer um nome mais ou menos
conhecido num pequeno círculo. Penso que nosso trabalho, por menor que
seja o círculo que possamos atingir, tem importância no processo
cultural do meio em que vivemos. Somos parte de um processo que se iniciou
à nossa revelia e que continuará também à nossa revelia. Se quisermos
fazer parte dessa corrente, com nossas obras, com nossas idéias, penso
que sobreviveremos através daquilo que fazemos. |

Auto-retrato triplo
vinil s/ tela
Paris, 1967 - coleção Ceres Franco
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Auto-retrato
Nanquim / 50 x 35 cm
Ouro Preto, 1968 / coleção do artista |
Se o nosso trabalho vai
ser importante ou não, não é o que nos importa agora, nos importa sim,
oferecer o melhor da melhor forma possível. Leonardo Da Vinci já
dizia que o cansaço de ser útil é uma primeira morte. Penso que esse
conceito, partindo de quem parte, nos faz mais humildes. Não me creio
dono da verdade. Não sei se a minha experiência vale para os outros, mas
continuo trabalhando com o maior apetite e empenho, desejando me
surpreender em cada trabalho que faço e desejando fazer de cada
expectador um amigo desconhecido.
Se eu conseguir fazer com que meu
trabalho, além de me estimular, estimule os outros, viva!"
(depoimento sobre a
experiência no setor de arte - 1980)
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" A cara do brasileiro índio,
branco, negro e amarelo, rico de sua luta, de seu teimoso existir, é
semelhante à de todas as comunidades no mundo em seu difícil
sobreviver. Temos um país que, mais do que um continente na sua
área, o é no seu sonho.
Cada um vê o mundo com os olhos que
a vida ensinou."
(entrevista a Sean Hagen,
revista Viva no Sul, 2000)
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Auto-retrato
vinil encerado s/ tela / 50 x 40 cm
Cabo Frio, 1997 |
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