|
"Meu
primeiro contato com a obra de Carlos Scliar deu-se na Galeria Tenreiro,
ainda localizada na rua Barata Ribeiro. Gostei imensamente do que vi.
Pouco depois Scliar visitou uma coletiva na Galeria OCA, da qual eu
fazia parte. Isto se deu em 1961, mas nossa amizade só se
estreitou em 1967, quando, graças ao apoio de Scliar, fui aceita entre
aqueles que organizavam a Associação Brasileira de Artistas Plásticos.
A
partir d’aí passei a freqüentar sua casa e a admira-lo, não só
como artista, mas também como um trabalhador infatigável, um caráter
íntegro e um amigo de generosidade inigualável. Ele sentia uma sincera
alegria em acompanhar o progresso de colegas bem sucedidos e em
incentivar a carreira de iniciantes como eu era então. Explicava
sua técnica sem guardar segredos, abria as portas tanto de galerias
quanto de colecionadores, infundia entusiasmo pelo trabalho, encorajava
a originalidade, reforçava a auto-estima e, se podia, adquiria uma obra
em sinal de confiança.
Quando
percebia que seus amigos estavam sendo prejudicados, Scliar os defendia
como se defendesse a si próprio. Em contrapartida, esperava deles
lealdade e cooperação nas boas campanhas em que se engajava, tais como
as desenvolvidas em prol de Ouro Preto, de Cabo Frio, do Parque Lage.
Não suportava a ingratidão, a mentira, o egoísmo, a preguiça, a
covardia.
Scliar
era um racional que não impedia que seu lirismo aflorasse.
Mantinha uma disciplina rígida, uma organização metódica, mas era
com paixão que lutava por seus princípios.
Alguns
o criticavam por acharem sua produção excessiva. Não
compreendiam que Scliar “pensava, fazendo”. Ele não era um teórico.
O próprio mecanismo da técnica que desenvolvera exigia rapidez.
A insatisfação, os impasses, as tentativas e as soluções iam
surgindo em suas telas enquanto ele não parava de pintar.
Admiro
em sua obra o apuro artesanal, o equilíbrio das composições, a
mestria no uso dos recursos gráficos, da textura e da cor, a profunda
compreensão do modelo observado, a ousadia das simplificações e a
grande liberdade que se evidencia na execução. Foi necessário
que o senso poético do artista se apoiasse em conhecimento,
experiência e obstinação a fim de que uma árvore, um barco, uma
casa, um lampião ou um vaso de flores “falassem” com a voz de
Carlos Scliar, ou seja: a fim de que a natureza se transformasse
em arte.
É
bom ter Scliar presente em seus quadros. É muito triste já não
poder conversar com ele, seguir sua liderança e acompanhar o
fascinante desenrolar de sua criação."
Maria
Luiza Leão
13-02-02
|
|