CARLOS

 

 

SCLIAR

Vida


Seu pai, Henrique Scliar, de origem judaica, imigrou para a Argentina aos 17 anos, terminando por fixar-se no sul do Brasil. Casou-se com Cecília Stechman, originária da Rumânia, na cidade de Santa Maria da Boca do Monte, onde nasceria Carlos, em 21 de junho de 1920. Aos seis meses de idade foi levado para Porto Alegre, e lá viveu até os dezoito anos.


 

 

Aos 11 anos Scliar já colaborava na imprensa, escrevendo contos, poemas, inventando lendas e ilustrando seus textos. Em pouco tempo optava pela ilustração como atividade principal. Em 1935 expôs pela primeira vez, como amador, na Exposição do Centenário da Farroupilha, em Porto Alegre.

De 1935 a 1937 freqüentou o departamento gráfico da Editora Globo. Foi a partir do contato com o mundo gráfico e com artistas que surgiu a Associação de Artes Plásticas Francisco Lisboa, da qual foi o primeiro secretário.

 No começo de 1939, Scliar levou alguns quadros para o II Salão de Maio, em São Paulo. Esses quadros não foram aceitos no Salão, mas tampouco foram devolvidos. Ele jamais os encontrou.


Scliar, 1938 (17 anos)


Carlos Scliar fazia parte da vanguarda do Rio Grande do Sul e tinha conhecimentos no meio artístico dos grandes centros - Rio e São Paulo. Ao chegar ao Rio, ainda na década de 1930, Scliar já sabia a quem procurar. Seu objetivo era conhecer Portinari, que representava uma espécie de bandeira da arte moderna, com apelos nacionalistas.


 



Carlos Scliar, 19 anos
foto de Rubem Braga
São Paulo, 1940

Foi recebido por Portinari que, no entanto, criticou sua pasta, perguntando-lhe se afinal ele queria fazer ilustração, decoração para teatro ou se queria ser pintor.  Ele queria ser pintor. "Então não é nada disso que você está fazendo." - disse Portinari, expondo-lhe vários conceitos e uma série de álbuns de pintores da Escola de Paris, de Braque, de Picasso...

Depois disso, o jovem Scliar entrou em crise e durante seis meses freqüentou um curso de engenharia.

Nesta época conheceu Rubem Braga, que o incentivou com suas análises e observações, ao mesmo tempo criteriosas e afetivas. Scliar abandonou o curso de engenharia, voltou a pintar e, em 1939,  ajudou a organizar o 2º Salão da Francisco Lisboa.

 


Participou da única exposição que a Família Artística Paulista fez no Rio de Janeiro, em 1940. Participou também, com o grupo de São Paulo, da primeira Divisão de Arte Moderna do Salão Nacional. Foi também em 1940 a primeira exposição individual de Carlos Scliar. Recebeu inúmeras críticas favoráveis e uma severa, de Lívio Abramo. Tal crítica fez com que se recolhesse, pintando durante um ano sozinho, sem mostrar seus trabalhos.

O período que sucedeu a esta reclusão foi considerado pelo próprio artista como o início de uma trajetória. O apoio de Bonadei, Manoel Martins, Graciliano, entre outros, foi fundamental.


 

Em 1941, Scliar muda-se para o Rio de Janeiro, a convite de Jorge Amado. No final deste mesmo ano, Jorge exilou-se no Uruguai e Scliar foi para a fazenda da família Amado, no sul da Bahia, onde passou alguns meses.

De volta a São Paulo, trabalhando ativamente em vários projetos, Scliar começou a fazer o curso de Ciências Sociais na Fundação Armando Alves Penteado, até que, em fins de 1942, foi convocado pela FEB. Voltou então ao Rio, no início de 1943, para fazer o curso de Comunicação, que o levaria a trabalhar em uma das unidades da FEB na Itália, em 1944 - II Guerra Mundial.

Em contato com a miséria que a guerra produz, iniciou uma nova etapa em sua pintura: nas horas de folga começou a desenhar e pintar naturezas-mortas e retratos, onde demonstrava seu amor às coisas simples e cotidianas. Sua pintura sofreu uma modificação não apenas temática, mas sensorial.

 

(foto) Scliar, 1944, preparando-se para sua primeira exposição individual,
às vésperas de embarcar para a Guerra na Itália.


Em 1947 viaja para a França, onde fica por quatro anos, integrando-se à Escola de Paris, participando de congressos, festivais e de movimentos em defesa da Paz entre os povos.

Em fins de 1950 retorna ao Brasil, enfurnando-se no Rio Grande do Sul, em busca de suas raízes. Nessa ocasião participou da criação do Clube de Gravura, idéia que se espalhou pelo país e pelo exterior.

A partir de 1952, um pequeno grupo vinculado a Bagé (RS) passou a trabalhar naquela cidade e nas estâncias vizinhas. Os temas ligados à vida, costumes e paisagens locais passam a ser preocupação desse grupo. Durante seis anos passam largos períodos desenhando, gravando e pintando temas gaúchos.


Os trabalhos realizados durante a década de 50, regidos pelo rigor, permitiram a Scliar, artista autodidata, o necessário aprimoramento de sua produção artística. Foi a década do amadurecimento do artista. Depois de tanta história, de tantas aventuras, de tanto trabalho, aos 40 anos de idade encontrava-se em condições, no início dos anos 60, de promover a síntese de todas as suas experiências e realizar uma obra que correspondesse aos seus anseios e expectativas.

Em 1955, Scliar decidiu reunir material e mostrá-lo no eixo Rio-São Paulo. Voltou a trabalhar em artes gráficas. Buscava, através das naturezas-mortas, paisagens e retratos, chegar à simplicidade do que considerava essencial.

Em 1956, a convite de Oscar Niemeyer, Scliar embarca com entusiasmo no projeto de “Orfeu da Conceição”, poesia de Vinícius de Moraes transformada em peça musical pioneira. Todo o parte gráfica da peça e as ilustrações do livro, são de autoria de Scliar.



Scliar e Glauco Rodrigues, 1958, festa de lançamento da Revista Senhor

 

De 1958 a 1960 foi diretor de arte da revista Senhor, seu último trabalho profissional no setor gráfico. Desde sua exposição na Galeria Tenreiro, em abril de 1960, vinha vendendo seus trabalhos com regularidade. Saiu da revista em junho de 1960, já como artista contratado da Petite Galerie, e passou a dedicar-se somente à pintura. Seus trabalhos aumentaram de formato, passando para dípticos e trípticos - formas primeiras de se fazer painéis.

 Scliar investiu, então, numa arte de caráter figurativo, regido pela disciplina e pelo rigor do desenho, falando das particularidades e das diferenças sociais marcantes num país subdesenvolvido. Os anos do pós-guerra tinham dado ao artista a possibilidade de travar contato com a história da arte ocidental, com a modernidade, com os cubistas e com Morandi, além, é claro, de Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva.

 


Os anos 60 fizeram aflorar um artista sensível, sintonizado com o seu povo e com o mundo em que vive. Sua formação humanista, o espaço cubista, a atmosfera metafísica de Morandi, o rigor do desenho perseguido nos clubes de gravura e uma espécie de sensibilidade "elliotiana"  a trabalhar com a noção do tempo de uma maneira dinâmica e questionadora, tudo isso foi formando, até o fim da vida, a personalidade do artista. Descobrir a beleza das coisas simples, fazer da modernidade um exercício constante, uma disciplina de trabalho - é esse o artista que o mercado de arte, surgido com a criação das primeiras galerias de arte comerciais, descobre no início dos anos 60.


 

Nessa época, dois fatores atuaram de modo intenso na vida e, por conseguinte, na obra de Carlos Scliar: o primeiro foi a oportunidade de morar e trabalhar na cidade de Cabo Frio, área de ensolarada beleza do litoral fluminense. Para um artista comprometido com a técnica de observação da paisagem, a vivência cotidiana na Região dos Lagos, longe do burburinho e das mazelas típicas da cidade grande, fez com que suas composições se enriquecessem, adotando soluções mais variadas e harmônicas entre as áreas de luz e sombra, deixando-se sensibilizar ainda mais pela relação entre os tons quentes e frios, elaborando o movimento das formas e pesquisando as texturas da matéria, aproveitando-se com mais liberdade e emoção de amplas áreas da cor clara e limpa que a natureza do local lhe sugeria, unindo, nas diversas marinhas executadas desde então, essa luminosidade, essa atmosfera matinal e radiante, com uma permanente tranqüilidade e placidez dos objetos.


Scliar e amigos em frente à casa de Cabo Frio, 1968
 – entre eles o pintor José de Dome (primeiro sentado à esquerda)


 

Outro fator decisivo na vida de Scliar, com repercussão intensa sobre todo o seu trabalho, foi a descoberta, em 1961, da cidade histórica de Ouro Preto, em Minas Gerais. Poucas vezes uma região marcou tanto a obra de um artista brasileiro quanto a antiga Vila Rica o fez com o artista gaúcho. A arquitetura barroca, a atmosfera misteriosa e o espírito contido e silencioso do homem que habita a antiga região de extração do ouro atuaram de maneira impactante na alma do artista, homem de fronteira, judeu, filho de imigrantes. O "tempo psicológico" da obra de Scliar já não caminhava mais sozinho. Havia a ele agregada, perspassando todo e qualquer quadro seu, a criação de um tempo real, paralelo, perdido na história; um tempo quase esquecido por todos. A pintura de Scliar assume essa função, esse compromisso: resgatar a imagem, avivar a memória, relembrar.

 

(foto) Scliar na varanda da casa em Ouro Preto, 1970


A utilização da colagem reforça esse espírito, essa questão. É significativo assinalar que essa técnica surge na obra de Scliar numa pintura com o sugestivo título de "Saudade". Essa obra desencadeou uma série de trabalhos onde se incorporam jornais, documentos antigos, livros de reza, etc. Sobre esse momento, o próprio artista comenta: "Eu achava que aqueles livros de reza representavam os dois "Brasis" do momento: de um lado, o Brasil que já erguia Brasília, um Brasil do futuro; do outro, um Brasil do interior, atrasado, sob a influência de uma Igreja ainda retrógrada.  Meu trabalho representava assim os temas do homem que trabalha e os livros de reza, o atraso da Igreja. Logo depois de 64, descobri alguns desses livros comidos pelas traças e pensei que o Brasil estava sendo também "traçado" por uma economia estúpida, atrasada. E achava que cada quadro meu deveria oferecer todas as leituras possíveis, todas as minhas idéias que, a partir daquele momento, eu deveria transmitir metaforicamente. É claro que hoje sinto que o mais importante da minha pintura era o lado lírico; o meu amor à vida era sempre o elemento primordial, o que não impedia que tivesse períodos em que minha pintura fosse muito sombria, correspondendo aos instantes de desânimo, de injustiça que se assistia, a partir de 64."

Os últimos anos da década de 60 foram marcados por inúmeras manifestações políticas entre os diversos setores da sociedade brasileira, e Scliar esteve presente em todas essas manifestações.


 

Em 1970, Roberto Pontual organizou uma grande exposição de Scliar, demonstrando que o artista não era improvisado, que todo o seu trabalho mais recente era ancorado numa série de inquietações, de dúvidas e buscas.

Nessa época, Scliar passa a trabalhar com inteira liberdade sobre todos os temas, ao mesmo tempo que inicia uma série de pesquisas nas quais insere em seus quadros letras em profusão, incorporando frases que levavam o público a refletir, num momento em que a censura foi mais rigorosa no país. A palavra "Pense" entrou centenas de vezes em seus quadros e Scliar explica por que: "Era um momento em que as autoridades queriam pensar por nós, subestimando a capacidade e a inteligência do nosso povo".

 

(foto) Scliar, 1974, ateliê de Cabo Frio,
 processo de colagem


Scliar já vinha, desde 1960, estudando dípticos, trípticos ou polípticos, dentro de um sentido clássico, onde cada unidade valia em si como uma peça, mas que, na realidade, a principal idéia era o conjunto que essas peças reuniam. Somente em 1966 é que Scliar voltaria a se envolver com projeto de painéis, executando um para o Banco Aliança, no Rio de Janeiro. Ao longo de sua carreira, Scliar  realizou cerca de vinte painéis de grandes dimensões, instalados em diferentes cidades brasileiras, onde podem ser vistos e partilhados pelas comunidades às quais estão integrados.

Em 1973, por exemplo, Scliar foi convidado a executar um painel destinado à sede da Prefeitura de Porto Alegre (RS). Na verdade são três painéis, instalados no Salão Nobre, cada um retratando uma fase distinta da história da cidade. Nesse mesmo ano, fez dois painéis para a Bahia e recebeu um convite de Adolfo Bloch para execução de dez quadros para a nova sede da Manchete, no Rio. Há algum tempo Scliar já vinha sonhando em homenagear Ouro Preto; ofereceu, então, a Bloch, o projeto "Ouro Preto 180º", composto de dez peças distintas.

A convite de Jorge Amado, Scliar integrou a caravana de amigos do escritor que foi visitar o sul da Bahia, até Santa Cruz de Cabrália. Diante da beleza e da importância histórica do local, Scliar declarou a Jorge Amado seu desejo de fazer um painel sobre a região. Pouco tempo depois o governo estadual da Bahia encomendou-lhe dois painéis: um sobre Santa Cruz de Cabrália e outro sobre Porto Seguro, a serem instalados no Centro Administrativo de Salvador.

O grande projeto de Scliar - "Ouro Preto, 360º" - finalmente foi realizado, em 1976, para um colecionador de Brasília e hoje encontra-se no Rio de Janeiro. Para o painel destinado à nova sede da Imprensa Oficial do Rio de Janeiro, em Niterói, Scliar recuperou o tema "Leia e Pense", sua  característica da década.


 


Scliar, 1981, serigrafias

 

Durante toda a década de 70, as pinturas de Scliar cedem cada vez mais espaço à objetividade das linhas, à clareza da composição, uma espécie de leitura metafórica da situação política do país. É interessante assinalar que, exatamente no período em que a arte viu-se obrigada ao refúgio, perseguida pelo autoritarismo, tenha tido Scliar a oportunidade de reconstruir visualmente a história de nosso país. Coerente com sua ideologia, jamais o artista cedeu aos apelos do ufanismo; ao contrário, fez da realidade cotidiana do homem trabalhador brasileiro o tema principal de sua obra, valorizando assim, com inteligência, a sensibilidade e a verdadeira imagem de um país que o poder constituído queria a todo custo apagar.

 


A passagem para os anos 80 apresenta um artista mais sensível aos mistérios e aos prazeres da cor. os trabalhos da década anterior assumiam claramente seus compromissos com a arte gráfica: a clareza das linhas regia o espetáculo. A cor vestia os objetos como uma pele, ocupando as áreas determinadas pelo contorno das formas. Sem grandes atropelos ou sobressaltos, lentamente Scliar vai permitindo à cor libertar-se desses limites: as flores adquirem movimento, as imagens ficam mais sensuais, uma efetiva tentativa de captar cada instante do mundo e vivê-lo intensamente, fazendo de cada trabalho um exercício de prazer.

Essa aura de liberdade dos trabalhos da primeira metade da década de 80 corresponde também ao espírito da época: o povo reconquistava as ruas e as artes plásticas libertavam-se das amarras da vanguarda experimental.


 

Toda essa alteração no circuito artístico vai ao encontro das propostas de Carlos Scliar: há muito tempo ele abandonara a idéia de atrelar-se a compromissos com uma espécie de vanguarda que destruía todo e qualquer objeto e engendrava a prisão do fazer artístico, demolindo o seu sistema de comunicação e asfixiando a criatividade através de um rigor filosófico sufocante. Ao contrário, o artista jamais recusou a possibilidade de se tornar popular. Num país como o nosso, no qual as elites alimentam estruturas arcaicas e academizantes como estratégia de preservação de privilégios, Scliar sempre soube das dificuldades de ser e atuar como agente da modernidade, por isso optou pela tradição, para sensibilizar o espectador através do equilíbrio e da harmonia de formas e cores.

Ao mesmo tempo em que investe na linguagem universal da arte, Scliar acredita nas suas características, até mesmo regionais. Dentro de sua proposta de ser ao mesmo tempo um artista universal e brasileiro, Scliar jamais deixou de investir em diversas técnicas artísticas, de maneira a ampliar seu público. Como a pintura é, na essência, uma técnica elitista, Scliar jamais deixou de trabalhar com a gravura, em especial, com a litografia.

 


Scliar, ateliê de Cabo Frio, década de 90


Assim, os anos 80 representam o período de maturidade do artista: menos preocupado com as inovações, a Scliar interessa sedimentar no espírito e na inteligência das pessoas as conquistas da modernidade. Para tal, o artista trabalha e retrabalha suas imagens, seu sensível repertório visual, obtendo novas relações, novos resultados. A série de trabalhos organizada para a mostra "Território Ocupado"  que se realizou na escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ) é significativa, uma espécie de síntese desse período.

Outro momento significativo é a série de desenhos, gravuras e pintura realizada em Angra dos Reis (RJ) sob encomenda da empresa Verolme, em 1984. Diante da paisagem luxuriante dessa região, Scliar resgatou o traço rápido, o gesto veloz, a herança expressionista manifestada nos desenhos de guerra e produziu uma série de intensa beleza e espírito contemporâneo.



Scliar em Cabo Frio, 1996
pintando  "Ceia"

  Ao longo dos anos, ainda como parte da fidelidade a si mesmo, Scliar tem-se notabilizado pelo emprego sistemático da colagem - que em seu caso, mais que uma técnica, é um recurso expressivo, que passa  a fazer parte de seu próprio recado. Como para os cubistas, a colagem sempre teve a função de evidenciar a autonomia da pintura, através da evidência da superfície, do suporte.

Nos anos 90, a colagem se enriqueceu de um caráter lúdico, que se faz também permanente invenção. Numa tela aparece, como forma recortada em negativo, uma superfície que vai aparecer numa outra, aplicada em positivo; uma "lei de Lavoisier"  da poética: nada se perde, tudo se transforma. A partir de 1994, Scliar quis homenagear nossos músicos eruditos, alimentados pelas nossas raízes populares: passa a incluir partituras musicais entre os elementos de colagens.

Através de rosas, bules, lamparinas, berinjelas, colheres de pedreiro ou lagunas luminosas, aspira a oferecer um espaço e um tempo de vivências menos angustiantes que os do dia-a-dia, para o homem.  É dessa época a declaração do artista: " Os meus temas refletem a vontade de mostrar cada momento de amor às coisas que me rodeiam. Acredito que hoje meu trabalho está começando a tomar consciência de possibilidades que ainda penso usar durante mais vinte ou trinta anos. Tenho consciência de que aquilo que faço é somente uma parcela do que ainda poderei fazer."


 

No ano de 1999 e parte de 2000, Scliar dedicou-se à criação da série comemorativa dos 500 anos do Brasil, desafio que exigiu-lhe uma atividade tão intensa que acabou por abalar sua saúde. Também esse desafio foi vencido, resultando num álbum onde a síntese consciente de um Brasil sofrido convive com uma intensa e poética visão da vida e da arte.

Ainda em 2000, Scliar foi convidado a expor seus "Cadernos de Guerra 1944-1945" e a "Redescoberta do Brasil" no Museu Morandi, em Bolonha, Itália, exposição que também foi vista em  Roma .

Em 2001, a trajetória vibrante do pintor Carlos Scliar foi coroada com sua última exposição, Scliar -  80 anos, a cuja inauguração esteve presente, no Museu Nacional de Belas Artes (RJ), mostra que apresenta quadros pintados durante sua enfermidade. Nesse período, já adoentado, mas com uma produção impressionante, um repórter que o entrevistava perguntou em quanto tempo ele pintava um quadro; Scliar, tranqüilamente, respondeu: "Em uma hora e 80 anos".


Scliar e o maestro Edino Krieger, no momento em que o pintor grava suas mãos para a Calçada da Fama do Museu da Imagem e do Som (RJ)


Carlos Scliar faleceu no dia 28 de abril de 2001, no Rio de Janeiro, onde foi cremado. As cinzas, atendendo a seu pedido, foram lançadas no mar de Cabo Frio, por ocasião da inauguração do Instituto Cultural Carlos Scliar - concretizando, assim, mais um sonho, dos tantos que nasceram de sua fertilíssima  criatividade.