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"Para
Scliar a vida conta em seus mínimos detalhes. Pode ele não ser
talvez - por se tratar de artista notavelmente equilibrado - um
participante desabrido, no sentido picasseano, pois em Scliar a
coragem de viver é sempre amenizada por uma grande ternura por tudo o
que existe. É difícil encontrar criatura menos egoísta. Mas ele é
também o contrário de um alienado. Sua arte traduz um refinamento
orgânico, fruto de sua evolução como homem; constitui uma síntese
sem perda de substância. Sente-se que o artista domou os elementos
mais dramáticos de sua experiência vital no sentido de uma
comunicação talvez menos pungente, mas certamente mais pura na
acepção platônica do termo. E nisso ele se aparenta - guardadas as
proporções históricas - a um Mallarmé no campo da poesia. Buscando
extrair dos objetos (que são, ademais de criação do homem, seus
melhores amigos) o máximo de sua essencialidade, Scliar revela de
saída, para quem souber ver, toda a pureza de seu humanismo
dialético, do seu intenso mas disciplinado amor pelo homem através
do que o homem cria com suas próprias mãos. E embora as coisas e
objetos - ou seja, as formas - não prevaleçam na sua atual pintura
como os valores mais intencionais, são eles os instrumentos de sua
constante pesquisa do mistério desse choque sem ruído da luz sobre
as coisas e objetos, do qual nasce a cor. Num artista humanamente
menos consciente, isso poderia parecer um exercício estéril, como o
que, mutatis mutandis, compromete a meu ver a arte poética de
Valéry. Mas em Scliar o prazer quase infantil que o artista tem em
jogar com esse trinômio luz-objeto-cor, resulta positivo porque na
contextura de seus quadros, no seu discreto figurativismo, existe
latente o sentimento de dádiva, de comunicação. Como se o pintor
oferecesse ao homem, seu semelhante, certos segredos e nuançcas de
sua própria obra que este, sempre voltado para o prosaismo do seu
cotidiano, não pudesse ou não soubesse mais ver." (Vinícius
de Morais, Roma, 1963)
"Num
meio artístico aloprado como o nosso, a coerência de Scliar como
pintor é admirável. E a coisa linda também nesse poeta do objetivo
é que o sucesso e a prosperidade em nada afetaram o seu angelismo, em
nada comprometeram a sua inata disciplina e frugalidade. Eu,
simplesmente, gosto de Scliar, isso é tão simples. E independente da
grande admiração que tenho por ele."
Vinícius
de Moraes (Fatos e Fotos, RJ, 1964)
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